Este blog dedica-se a exercitar "escuta" sensível às manifestações artísticas, criações e ilusões humanas.

domingo, 7 de novembro de 2010

ADDICTION


"Primeiro o homem toma uma bebida, então a  bebida toma uma bebida, então a bebida toma o homem" 
Provérbio Japonês.


Pretendemos neste espaço pensar sobre o termo de addiction num contexto de economia psíquica onde nos parece aceitável fazer um paralelo entre o consumo de droga  e o modo de subjetivação  do sujeito e para tal recorremos a dois textos, " A Droga e a Coisa: sobre a delimitação do conceito de toxicomania" de Décio Gurfinkel e "As neonecessidades e as Sexualidades Adtivas" da autora Joyce McDougall. 

No primerio texto a idéia central, no que se refere ao termo em questão, é que a marca da adicção está na perda de liberdade de escolha diante de um objeto específico, o sujeito está  em uma condição de escravidão na qual predominaria uma ação impulsiva em direcção ao objeto. O autor nos lembra a teoria freudiana a qual considera o psiquismo regido por dois princípios: o princípio do prazer e o de desprazer, denominado de princípio de realidade. Entretanto, segundo Gurfinkel, estes princípios revelam-se insuficientes para dar conta do problema. Em 1920 no texto Além do Princípio da Realidade, Freud formula o controvertido conceito de pulsão de morte.

Uma das características mais importantes da pulsão sexual é a contingência do seu objeto, isto quer dizer, que um objeto se torna verdadeiramente objeto da pulsão quando, em determinada circunstância, serve de meio para que a pulsão obtenha satisfação. Isto explica a variedade de objetos e seus possíveis deslocamentos, porém é nas situações de adicção  onde  se perde esta plasticidade  ocorrerendo consequentemente a fixação do objeto.

Gurkfinkel aponta que tanto a dimensão objeto-fetiche quanto a oralidade são matérias fertéis 
para pensar a adicção. No caso do desenvolvimento inicial pulsional  da fase oral principalmente a que corresponde a voracidade canibalística coincide a ingestão com destruição do objeto. Nesta associação, a de tratar addiction associada  ao comer, observa-se com mais nitidez  a tendência em transformar o que seria do âmbito do desejo para o plano da necessidade.  O objeto-droga torna-se uma necessidade e não mais um objeto de desejo como é o caso de um uso não aditivo, há uma distorção da lógica pulsional por meio da qual  a pulsão sexual "se transforma" em pulsão de autoconservação.

McDougall, psicanalista neozelandesa radicada na França,  coloca o termo addiction circunscrito a conflitos arcaicos,  o comportamento adictivo tem a intenção de dissipar sentimentos de angústia ou qualquer outro sentimento que seja insuportável . Uma vez descoberto esse recurso à substância é mantido a fim de atenuar experiências emocionais entendidas como tensas para o sujeito, sendo que essas experiências nem sempre se restringem a afetos desprazerosos. Para a autora uma das características do comportamento adictvo é o  livrar-se de sentimentos. Buscar 
um  objeto aditivo é um ato que teria a ilusão de fazer com que a pessoa lide melhor em meio às dificuldades da vida cotidiana.  A questão que a autora se coloca é : " por que não escolhemos recursos menos tóxicos para lidar com a experiência emocional? 

 Uma das origens  possíveis da economia adictiva no sujeito remonta-se ao relacionamento inicial mãe-filho. A mãe "suficientemente boa" no sentido winnicottiano  vivencia um sentimento de fusão com o seu bebê, necessário por um tempo. Entretanto  se esta atitude persistir além desse periódo a relação entre os dois torna-se patológica e com colorido persecutório. O que ocorre  é que a mãe deixa de investir positivamente no seu bebê porque provavelmente está atenuando uma necessidade não-satisfeita dela própria afetando com isto o desenvolvimento do infante. Esta modalidade de relacionamento, quando intensificada, tende a criar o medo de que o infante possa desenvolver seus próprios recursos  para lidar com a tensão. O que Winnicott chamou de "capacidade de ficar sozinho",  e isto vale dizer estar sozinho mesmo quando  a mãe está por perto,  pode ficar comprometida no bebê fazendo com que ele sempre procure a presença da mãe  a fim de lidar com pressões internas ou externas. Por causa das suas próprias  angústias ou medos inconscientes a mãe é pode instalar  em seu lactente um relacionamento adicitivo, quando num certo sentido é a mãe quem está num estado de dependência em relação ao seu bebê.

A capacidade para conter e lidar com a dor psicológica  implica no êxito do processo de internalização  ou do estabelecemimento da representação interna da figura materna e paterna. Uma das soluções para lidar com essa deficiência é buscar no mundo externo o que não está no mundo interno.  Desse modo, as drogas, a comida, o álcool, ou qualquer outro objeto podem ser utilizados para atenuar estados mentais entendidos como complicados e dolorosos para o sujeito, os quais por su vez, "liberam"  a criança-adulto da dependência total da presença da mãe. Esta autora coloca a solução aditiva no campo das neonecessidades, e como tais, necessariamente falham, uma vez que se constituem tentativas antes somáticas do que psicológicas para lidar com a ausência. Ausência passível de ser interpretada como tentativa de lidar com angústias neuróticas, tentativa de combater estados de depressão ou fugas de angústias psicóticas que se tradizem em medos da fragmentação corporal ou psíquica. 

Ainda segundo a autora, os  objetos de adicção não se restringem  às substâncias, outras pessoas também podem servir a esse propósito, há indivíduos que se "alimentam"  de outros como objetos de necessidade narcísica. Um relacionamento pautado nessa lógica cria na maioria dos casos, uma dependência exigente e um sentimento infantil de desamparo. 


A complexidade da questão das drogas  requer,  no nosso entender, uma abordagem necessariamente inter e transdisciplinar e integralidade das práticas onde não houvesse uma dissociação das acões preventivas e de tratamento. Um olhar que contemplasse as questões intersubjetivas  e intrasubjetivas implicadas no processo de estruturação do psiquismo tal qual postulado pelos autores aliados ao conhecimento dos transtornos relacionados ao uso da substâncias seria  fundamental para  intervir precocemente em pacientes na iminência de desenvolver problemas mais sérios com o álcool e com outras drogas. 

Os confltios entre  a terapia psicodinâmica e o tratamento de adicções  e as Terapias Cognitivos Comportamentais se justificam na medida em que trazer à tona as causas subjacentes ao uso ou procurar as raízes da adicção nos estágios iniciais do tratamento é o caminho certo para o fracasso dada a grande labilidade emocional  e a dificuldade em lidar com as emoções  desse tipo de paciente, o recomendável em termos de meta inicial  é a mudança de comportamento  e não insghts.

Referencia Bibliográfica:

GURFINKEL, DÉCIO. A Droga e a Coisa: sobre a delimitação do conceito de Toxicomania. In Saúde Mental, Crime e Justiça. Claudio Coen, Marco Segre, Flávio Carvalho Ferraz (organizadores) São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2ed. rev. e atual., 2006. (Coleção Faculdade de Medicina da USP; 3) 

MCDOUGALL, JOYCE. As Múltiplas faces de Eros: uma exploração psicanalítica da sexualidade humana. São Paulo: Martins Fontes, 1997. 

WASHTON, A.M.; ZWEBEN, JOAN E. Prática psicoterápica eficaz dos problemas com álcool e drogas. Porto Alegre: Artmed, 2009. 

  

Um comentário:

Anônimo disse...

" por que não escolhemos recursos menos tóxicos para lidar com a experiência emocional?


"Uma das origens possíveis da economia adictiva no sujeito remonta-se ao relacionamento inicial mãe-filho. A mãe "suficientemente boa" no sentido winnicottiano vivencia um sentimento de fusão com o seu bebê, necessário por um tempo."
Para mim, este trecho disse tudo. Recentemente apontei 2 detalhes que tiveram sentido de inauguração: Perguntar-me 'por que?' e "como assim", logo após uma idéia minha, na relação virtual no Facebook.
Voce me surpreende!!! Quem não cresce após boas surpresas?