Este blog dedica-se a exercitar "escuta" sensível às manifestações artísticas, criações e ilusões humanas.
sexta-feira, 15 de outubro de 2010
Benefícios dos Tribunais para Dependentes Químicos
Um dos temas da reunião aberta deste mês patrocinado pelo COMUDA foi a experiência de sucesso nos EUA do denominado programa " Justiça Terapêutica" apresentado pelo palestrante convidado Mr. David Kahn, Promotor no Condado de Miami-Dade, na Divisão de Narcóticos. Grosso modo, " Justiça Terapêutica" consiste na possibilidade de estipular penas alternativas na forma de tratamento da dependencia química para os casos de infratores de delitos não graves que envolva dependência química, O programa está aberto para aquele que quer se tratar e aceita as condições do tratamento, explicitadas antes da sua adesão. O pressuposto que norteia este programa é a deconfiança da pena de prisão como pena eficaz e adequada para estes casos. Segue na íntegra o texto do COMUDA - Conselho Municipal de Políticas Públicas de drogas e álcool - que aborda os benefíícios desta proposta para os dependentes químicos: Os tribunais para dependentes químicos são considerados a mais importante iniciativa da justiça criminal do último século. Muitos dos principais benefícios dos programas desses tribunais são discutidos a seguir.
Tribunais para dependentes químicos reduzem reincidência criminal
Pesquisas nacionais
De acordo com estudo divulgado pelo Instituto Nacional de Justiça (NIJ) em 2003, a partir de uma amostragem de 17 mil infratores que cumpriram o programa dos tribunais para dependentes químicos em todo o país, em um ano desde o término do programa, apenas 16,4% foram presos novamente e acusados de crime (Roman, Townsend e Bhati, 2003). Um relatório de 2000 do Instituto de Justiça Vera concluiu que “a literatura sobre reincidência é bastante significativa atualmente, apesar da fragilidade metodológica ainda existente, para concluir que o cumprimento de um programa dos tribunais para dependentes químicos reduz a probabilidade de prisão no futuro” (Fluellen e Trone, 2000).
Pesquisas em âmbito estadual
O maior estudo realizado em âmbito estadual sobre tribunais para dependentes químicos até agora foi divulgado em 2003 pelo Centro de Inovação Jurídica (CCI). O estudo analisou o impacto do sistema de tribunais para dependentes químicos no estado de Nova York. E descobriu que a taxa de reincidência entre 2.135 réus que participaram de seis tribunais para dependentes químicos do estado foi, em média, 29% menor (13% para 47%) no período de três anos do que para os mesmos tipos de infratores que não entraram no tribunal para dependentes químicos (Rempel, et al., 2003). A pesquisa também concluiu que os casos de tribunais para dependentes químicos tiveram decisão inicial mais rápida do que os casos de tribunais convencionais e que a taxa de retenção em tratamento dos tribunais para dependentes químicos no estado foi de aproximadamente 65%, superior à média nacional de 60% (Rempel, et al., 2003).
Pesquisas locais
Até agora, já foram realizadas centenas de avaliações em programas de tribunais locais para dependentes químicos em todo o país. Uma amostra das avaliações mais rigorosas realizadas em alguns tribunais para dependentes químicos mostra reduções significativas na reincidência. No condado de Chester, Pensilvânia, infratores que cumpriram o programa dos tribunais para dependentes químicos apresentaram taxa de reincidência de 5,4% em comparação com uma taxa de 21,5% no grupo de controle (Brewster, 2001); no condado de Dade, Flórida, essa relação foi de 33% para 48% respectivamente (Goldkamp e Weiland, 1993); e de 15,6 % para 48,7% em Dallas, Texas (Turley e Sibley, 2001).
Tribunais para dependentes químicos economizam dinheiro
Pesquisas em âmbito estadual
O retorno para o contribuinte estadual de um investimento inicial em tribunais para dependentes químicos é substancial. Um estudo sobre seis tribunais para dependentes químicos no estado de Washington revela que “um investimento do condado em tribunais para dependentes químicos é compensado com a diminuição das taxas de criminalidade entre participantes dos programas desses tribunais” (Instituto de Políticas Públicas do Estado de Washington, 2003). O estudo estima que o participante médio dos tribunais para dependentes químicos produz US$ 6.779 em benefícios decorrentes de reduções estimadas em 13% na reincidência (Instituto de Políticas Públicas do Estado de Washington, 2003). Esses benefícios são compostos por uma economia de US$ 3.759 nos custos do sistema de justiça criminal pagos pelos contribuintes e de US$ 3.020 em custos para as vítimas (Instituto de Políticas Públicas do Estado de Washington, 2003). Cada dólar gasto em tribunais para dependentes químicos rendeu um total de US$ 1,74 em benefícios (Instituto de Políticas Públicas do Estado de Washington, 2003).
Com base no estudo do Centro de Inovação Jurídica sobre os tribunais para dependentes químicos de Nova York, o sistema jurídico estadual estima que foram economizados US$ 254 milhões em custos de encarceramento com o encaminhamento para tratamento de 18 mil infratores dependentes químicos não violentos (Rempel, et al., 2003).
Na Califórnia, pesquisadores concluíram recentemente dois estudos que demonstram significativas economias de custo-benefício. Os dois estudos mostram uma economia mínima de US$ 18 milhões por ano por meio dos tribunais para dependentes químicos da Califórnia. De fato, os estudos concluíram que o investimento de US$ 14 milhões feito pelo estado da Califórnia, em conjunto com outros recursos, evitou custos no total de US$ 43,3 milhões no período de dois anos (Conselho Judicial da Califórnia e Departamento de Programas sobre Álcool e Drogas da Califórnia, 2002; NPC Research, Inc. e Conselho Judicial da Califórnia, 2002). Um dos estudos analisou a relação custo-eficácia dos tribunais para dependentes químicos em termos de custos de encarceramento evitados e compensação de custos com pagamentos de taxas e multas pelos participantes.Foram evitados 425.014 dias de prisão e custos de aproximadamente US$ 26 milhões (Conselho Judicial da Califórnia e Departamento de Programas sobre Álcool e Drogas da Califórnia, 2002). Foram evitados 227.894 dias de prisão e custos de aproximadamente US$ $16 milhões (Conselho Judicial da Califórnia e Departamento da Califórnia de Programas sobre Álcool e Drogas, 2002). Os participantes que concluíram um programa de tribunal para dependentes químicos pagaram quase US$ 1 milhão em taxas e multas impostas pelo tribunal (Conselho Judicial da Califórnia e Departamento de Programas sobre Álcool e Drogasda Califórnia, 2002).
O outro estudo, sobre três tribunais para dependentes químicos adultos, documentou uma média de custos evitados no valor de US$ 200 mil ao ano por 100 participantes em cada tribunal (NPC Research, Inc. e Conselho Judicial da Califórnia, 2002). Quando projetado para todo o estado, essas economias chegam a US$ 18 milhões em custos evitados por ano, supondo que 90 tribunais para dependentes químicos adultos operam com 100 clientes por ano (NPC Research, Inc. e Conselho Judicial da Califórnia, 2002). Com base nesses estudos e em uma análise dos dias de prisão economizados por tribunais para dependentes químicos, 58% do financiamento da Califórnia para esses tribunais é feito por meio de transferência direta de verbas do orçamento do Departamento Correcional.
Pesquisas locais
No condado de Multnomah, Oregon, um estudo realizado em todo o condado estimou que, para cada dólar gasto em tribunais para dependentes químicos, os contribuintes economizam US$ 10 (Finigan, 1998). Um estudo de acompanhamento na mesma localidade realizado pelo Instituto Nacional de Justiça mostrou que na comparação dos custos entre “o modelo tradicional” e o modelo de tribunais para dependentes químicos, este último economizou em média US$ 2.328,89 ao ano por participante (Carey e Finigan, 2003). Um dos componentes de uma análise de custo-benefício é o valor dos custos associados com as vítimas de crimes. Se a criminalidade diminui, o custo para as vítimas, conhecido como “custos de vitimização”, também caem. Quando os custos de vitimização foram considerados no estudo do condado de Multnomah, a economia média subiu para US$ 3.596,92 por cliente (Carey e Finigan, 2003).A economia total para os contribuintes locais considerando um período de 30 meses foi de US$ 5.071,57 por participante, ou uma economia de US$ 1.521.471 por ano (Carey e Finigan, 2003).
Um estudo do Departamento de Economia da Universidade Metodista do Sul revelou que para cada dólar gasto em tribunal para dependentes químicos em Dallas, Texas, foram economizados US$ 9,43 em impostos durante um período de 40 meses (Fomby e Rangaprasad, 2002).
Finalmente, um estudo recente sobre a eficácia do tribunal para dependentes químicos em Saint Louis, Missouri, que já opera há sete anos, descobriu que os benefícios do programa superaram em muito seu custo. As constatações do Instituto de Pesquisas Aplicadas, instituto independente de pesquisas de ciências sociais, indicaram que infratores dependentes químicos não violentos que foram encaminhados para tratamento em vez de irem para a prisão, no geral, ganharam mais dinheiro e tiraram menos dinheiro do sistema de bem-estar social do que aqueles que cumpriram pena em liberdade condicional. O estudo comparou os primeiros 219 indivíduos que concluíram o programa em 2001 com 219 pessoas que se confessaram culpadas de acusações relacionadas a drogas durante o mesmo período e que cumpriram pena em liberdade condicional. Para cada infrator que concluiu o programa dos tribunais para dependentes químicos, o custo para os contribuintes foi de US$ 7.793, US$ 1.449 a mais que o custo daqueles em liberdade condicional (Instituto de Pesquisas Aplicadas, 2004). Contudo, durante os dois anos seguintes ao término do programa, o custo para a cidade de cada infrator que concluiu o programa foi US$ 2.615 menor do que o custo daqueles em liberdade condicional (Instituto de Pesquisas Aplicadas, 2004). As economias foram realizadas em salários mais altos e impostos relacionados pagos, bem como em custos mais baixos para assistência à saúde e serviços de saúde mental. “O que se conclui é que os tribunais para dependentes químicos, que contam com tratamento para todos os indivíduos e apoio real – além de sanções quando eles fracassam – constituem um método melhor em termos da relação custo-eficácia de lidar com os problemas de drogas do que a liberdade condicional ou a prisão” (Instituto de Pesquisas Aplicadas, 2004).
Tribunais para dependentes químicos aumentam a retenção em tratamento
Um poder coercitivo dos tribunais para dependentes químicos é a chave para o rápido encaminhamento de infratores envolvidos com drogas para tratamento por um período de tempo longo o suficiente para fazer a diferença. Essa premissa é inequivocamente respaldada por dados empíricos sobre programas de tratamento de abuso de substâncias. Os dados demonstram com coerência que o tratamento, quando concluído, é eficaz. No entanto, a maioria dos dependentes químicos e alcoólicos, se lhe for dada a chance de escolha, não entra voluntariamente em um programa de tratamento. Aqueles que aceitam ingressar nos programas raramente os concluem; entre os que abandonam o programa, a norma é a recaída em um ano.
Da mesma forma, para que o tratamento cumpra sua promessa considerável, os infratores envolvidos com drogas não só precisam ingressar no tratamento, mas também permanecer em tratamento e concluir o programa. Para que eles façam isso, a maioria vai precisar de incentivos que podem ser caracterizados como “coercitivos”. No contexto de tratamento, o termo coerção – que é usado mais ou menos como sinônimo de “tratamento compulsório”, “tratamento obrigatório”, “tratamento involuntário”, “tratamento sob pressão legal” – refere-se a uma gama de estratégias que influenciam o comportamento ao responder a ações específicas com pressão externa e consequências previsíveis. Além disso, as evidências mostram que as pessoas que abusam de substâncias e recebem tratamento por meio de ordem judicial ou do empregador beneficiam-se tanto quanto seus colegas que ingressam voluntariamente no tratamento – e às vezes até mais (Satel, 1999; Huddleston, 2000).
Quatro estudos nacionais, com início em 1968 e término em 1995, analisaram aproximadamente 70 mil pacientes; desses, entre 40% e 50% ingressaram em programas residenciais ou ambulatoriais por ordem judicial ou outro tipo de coerção, (Simpson e Curry; Simpson e Sells, 1983; Hubbard, et al., 1989; Centro de Tratamento de Abuso de Substâncias, 1996).Foram feitas duas importantes descobertas.
Primeiro, o período de tempo em que um paciente permanece em tratamento se mostrou um indicador confiável de seu desempenho após o tratamento. Acima de um limite de 90 dias, os resultados do tratamento melhoraram em relação direta com o período de tempo passado em tratamento, constatando-se que o período de um ano é a duração mínima eficaz de tratamento (Simpson e Curry; Simpson e Sells, 1983; Hubbard, et al., 1989; Centro de Tratamento de Abuso de Substâncias, 1996). Segundo, pacientes coagidos mostraram tendência para permanecer por mais tempo em tratamento do que seus colegas “não coagidos”. Em suma, quanto mais tempo um paciente permanece em tratamento de drogas, melhor o resultado (Simpson e Curry; Simpson e Sells, 1983; Hubbard, et al., 1989; Centro de Tratamento de Abuso de Substâncias, 1996).
“Infelizmente, são poucos os pacientes de tratamento de abuso de drogas que chegam a esses limites cruciais. Entre 40% e 80% dos usuários de drogas abandonam o tratamento antes do limite de 90 dias do período necessário para um tratamento eficaz” (Stark, 1992, citado em Marlowe, DeMatteo e Festinger, 2003) e entre 80% e 90% abandonam em menos de doze meses (Satel, 1999, citado em Marlowe, DeMatteo e Festinger, 2003).
“Os tribunais para dependentes químicos superam essas projeções abismais” (Marlowe, DeMatteo e Festinger, 2003). Em âmbito nacional, os tribunais para dependentes químicos relatam taxas de retenção entre 67% e 71% (Universidade Americana).
Concluindo, mais de dois terços dos participantes que iniciam o tratamento por meio de um tribunal para dependentes químicos o terminam em um ano ou mais. “Isso representa uma retenção em tratamento seis vezes maior do que em esforços mais antigos” (Marlowe, DeMatteo e Festinger, 2003).
O tribunal para dependentes químicos é o melhor veículo dentro do sistema de justiça criminal para agilizar o intervalo de tempo entre a prisão e a entrada em tratamento e fornece a estrutura necessária para garantir que o infrator permaneça em tratamento tempo suficiente para obter seus benefícios.
Tribunais para dependentes químicos oferecem tratamento acessível
Pesquisas realizadas por prestadores de serviços terapêuticos indicam que o custo anual de serviços terapêuticos para participantes de tribunais para dependentes químicos varia muito devido a uma série de fatores. Entre esses fatores estão a população-alvo tratada no programa e o tipo de serviços terapêuticos prestados (que incluem uma ampla gama em termos de disponibilidade, custo e aplicação; ou seja, tratamento ambulatorial intensivo, internação monitorada por médicos, manutenção de metadona, comunidades terapêuticas, etc.). Além disso, custos de tratamento anualizados podem incluir serviços auxiliares oferecidos (isto é, capacitação para o trabalho, aconselhamento para controle da raiva, etc.), testes para detecção de uso de drogas e acompanhamento de casos (Universidade Americana, 2000).
Dada essa grande variedade de serviços oferecidos e prestados, 61% dos prestadores de serviços terapêuticos dos tribunais para dependentes químicos informam que o custo anual desses serviços por cliente varia entre US$ 900 e US$ 3.500 (Universidade Americana, 2000).
REFERÊNCIAS
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sexta-feira, 17 de setembro de 2010
O Dispositivo Grupal da Terapia Familiar
O Dispositivo Grupal da Terapia Familiar
Esse texto pretende pensar as formações grupais familiares como um tecido preexistente à todo psiquismo individual. Destaca portanto, o registro da intersubjetividade para o grupo familiar. Propõe-se também refletir sobre um enquadre de grupo para a família como o dispositivo de trabalho na terapia familiar psicanalítica.
Consideraremos inicialmente que na clínica essencialmente neurótica no atendimento individual, trabalha-se no registro do intrapsíquico, registro formalizado por Freud através do aparelho psíquico, portanto na transferência instalada, analisa-se as relações de objeto que irão se apresentar durante o tratamento.
A terapia das neuroses se baseia na idéia de que esta resulta de conflitos infantis não resolvidos que continuam a se manifestar como sintomas. O sofrimento psíquico é pensado como estando no interior do jogo entre as diferentes instâncias do aparelho psíquico. Ele se traduz nos sintomas que aparecem como formação de compromisso entre o desejo inconsciente e as exigências da realidade e do superego, e o ego adminstrando essa tensão. Porém, o entendimento do sofrimento humano não se resume apena à referência dos conflitos intrapsíquicos.
Os trabalhos de Bleger (1970) já apontavam a existência de formações não integradas ao psiquismo individual que são depositadas nos vínculos e postas em jogo em todo o grupo. Essas formações não integradas ao psiquismo vêm de restos de vínculos simbióticos primitivos não elaborados. Estas formações fazem parte da identidade mas devem permanecer mudas, clivadas para garantirem o funcionamento de formações psíquicas mais elaboradas como as formações do ego. Essas formações não integradas ao psiquismo individual seriam de natureza grupal: elas precederiam e depois sustentariam a individuação psíquica.
René Käes conceituou o aparelho psiquico grupal em 1979, o que ofereceu um suporte téorico-clínico para entender a formação e o funcionamento dos grupos. Os trabalhos de Käes sobre os grupos e as pesquisas de terapeutas de família na década de 80 expandiram as hipóteses sobre o funcionamento do aparelho psíquico familiar apresentado inicialmente por Ruffiot (1979).
Ruffiot (1979) formula a hipótese de um Aparelho Psíquico Familiar preexistente, genética e estruturalmente à organização do aparelho psíquico individual “ se é tecido antes de ser nascido” .
Nos casos de funcionamento neurótico prevalecente em um indivíduo, estas formações grupais tornaram-se suficientemente mudas para que o trabalho psíquico efetuado na terapia individual dirija-se às formações intrapsíquicas e aos conteúdos recalcados. Nos casos de funcionamentos psicóticos, anoréxicos, psicossomáticos e psicopáticos parecem mais predominantes a deficiência das estruturas do ego e de continentes do psiquismo.
Na escola francesa, a terapia familiar diriga-se particularmente para esses últimos funcionamentos e se interessa pelas condições que tornam possível o processo de subjetivação. A terapia familar psicanalítica , propondo um enquadre de grupo para a família, instaura condições de um espaço no qual irão se manifestar as formações psíquicas diferentes das observadas e tratadas no enquadre dual.
As formações grupais familiares serão vistas deste ponto de vista: o tecido grupal que precede ou preexiste a todo psiquismo individual e depois continua servir de sustentação. É a dimensão grupal deste aparelho psíquico familiar que será levado em conta.
O Aparelho Psíquico Familiar
O Aparelho Psíquico Familiar poderia ser definido como uma aprendizagem comum e partilhada pelos membros de uma família cuja função é de articular o funcionamento do “estar junto familiar” com os funcionamentos psíquicos individuais de cada um dos membros. Funciona como uma matriz de sentido, que serve de invólucro e sustentáculos primários para as psiques dos indivíduos dessa família.
Funções do Aparelho Psíquico Familiar
O aparelho psíquico familiar tem funções de continência, de ligação, de transformação e de transmissão para qualquer indivíduo. A função de continência abarcaria as angústias arcaicas correspondentes à função de pára-excitação, sustentáculo de elementos simbióticos que são necessários no periódo de desenvolvimento da criança.. A função de ligação se refere ao intrapsíquico e ao intersubjetivo, correspondendo ao processo progressivo no qual o recém-nascido poderá utulizar as vivências psíquicas , para no futuro, poder organizar sua psique e estabelecer relações objetais . A função de transformação tem como princípio acolher as experiências sensoriais do bebê através do holding, do meio ambiente. A função de transmissão na sucessão das gerações ou outrora denominado na sua dimensão intragrupal refere-se a maneira pela qual cada família irá dar à criança as chaves de acesso ao mundo.
Assim, o indivíduo não pode construir completamente a sua história: ele se ancora em uma história familiar que o precede da qual vai extrair a substância das suas fundações narcísicas e tomar um lugar de sujeito. Discutir, portanto a transmissão psíquica entre as gerações implica uma dualidade, se por um lado está atrelado à noção de continuidade, por outro, aponta para uma dimensão patológica na medida em que o indivíduo fica preso a uma pré-determinação ancestral, sem possibilidades criativas.
A importância do desejo parental na organização do psiquismo dos filhos teve variadas formulações teóricas que permitem pensar uma terapia familiar propriamente psicanalítica levando o interesse da transimissão psíquica transgeracional.
Cabe analisarmos, sob o ponto de vista teórico, a distinção conceitual entre transmissão psíquica intergeracional e transgeracional.
A herança intergeracional comporta elementos que são representados e não são de natureza traumática, logo é possível uma transmissão não patológica, seria portanto o aspecto saudável, onde existiria a possiblidade de um trabalho de ligação e de transformação, permitindo que o indivíduo se vincule a um grupo e esse grupo a um outro e assim sucessivamente. Em contrapartida, a transmissão psíquica transgeracional é a que possui os aspectos traumáticos e patológicos, que não permite transformações.
O tema da transgeracionalidade traz consigo a noção de transmissão do negativo, o “pacto do negativo”. Käes (1979) analisa o lugar do negativo que em qualquer vínculo, quer se trate de um casal, de um grupo, de uma família ou de uma instituição tem a sua função defensiva e estruturante. Para esse autor o pacto denegativo seria uma formação intemediária que conduz ao recalque, à recusa ou à reprovação de qualquer representação que pudesse questionar a formação desse vínculo e os investimentos de que é objeto. Estes negativos, aspectos não elaborados pela psique podem ser objeto de um pacto, de um contrato ou de uma aliança inconsciente entre os sujeitos do vínculo. No pacto denegativo o grupo organiza-se positivamente através dos investimentos e identificações comuns assim como organiza-se negativamente, na medida em que o “estar junto” exige renúncias e sacrifícios.
Nesse sentido, Kães (1989) fala das “alianças inconscientes” que, por estarem inscritas no processo de recalque e por visarem a preservação do vínculo, organizam e criam os vínculos na medida em que esta dimensão da aliança, implica em uma obrigação e um assujeitamento através de mútuas obrigações, ou seja , a criança que nasce é obrigada a encarregar-se das alianças inconscientes sobre os quais se fundamenta o encontro entre seus pais e suas descendências circunscritos pelos seus contratos narcísicos e pactos de negação.
Segundo Motta (2008), Käes toma como referência o que foi pontuado sobre o contrato narcísico por Castoriadis-Aulagnier (1975). O contrato narcísico carrega o sentido e a missão de cada sujeito inseridos na sucessão de gerações e no conjunto social, assim cada sujeito recebe um lugar determinado con conjunto ao qual pertence e uma missão, a saber, a de assegurar a continuidade da geração e do conjunto social. Käes discrimina o contrato narcísico em dois tipos, segundo suas formas. O primeiro tipo insere-se no grupo primário através dos investimentos do narcisismo primário. O segundo contrato narcísico situa-se nos grupos secundários, nas relações de complementaridade e de oposição. Qualquer mudança do sujeito em relação ao grupo coloca em questão os percalços do contrato.
Quando o tipo de transmissão envolve um saber da ordem do negativo, cujo conteúdo é negado, ele tenta vir à tona na forma de sintoma. Deste modo, o sintoma pode ser entendido como a expressão do sofrimento familiar. Cada indivíduo é submetido a uma dupla destinação e a família tem a necessidade de integrar a vinda desse novo elemento. Às vezes a integração só pode ser mantida às custas do processo de individuação dessa nova criança.
A mãe representa a família, é o porta-voz do grupo familiar que irá conceder o lugar para a nova criança. O nascimento é traumático para a família pois o bebê é familiar e estranho ao mesmo tempo, tem que ser incorporado pelo grupo e instalado em um cadeia. A criança é a aliança entre os pais: contrato narcísico dos pais, herdeira e prisioneira. O sofrimento familiar seria a manifestação de uma falta de metabolização, transmitida na geração que mantém um excesso de angústia . As vezes o equilíbrio é mantido por uma clivagem do sofrimento projetada sobre um membro da família, o porta-voz desse sofrimento.
O Dispositivo da Terapia Familiar
O objetivo da terapia familiar seria permitir a retomada de um funcionamento no qual a família possa se organizar, no registro da representação, o que tenha ficado fora desse registro. Melhorar a circulação de elementos representativos, restabelecer a capacidade de pensar do grupo familiar e não apenas com as fantasias individuais que possam surgir. Esta capacidade de pensar a que nos referimos aproxima-se do desenvolvimento que Bion deu à noção de identificação projetiva, considerando-a como sendo o primeiro meio de comunicação da criança, fazendo dela o ponto de partida da atividade de pensar e de elaborar a angústia. Assim nesse sentido, a família também busca ser contida e experimentar pensar em um espaço terapêutico seguro.
O enquadre configura-se como sessões semanais de uma hora e meia de duração com todos os membros da familia, o tempo é limitado e os encontros coordenados por dois terapeutas, são consideradas a escuta grupal e a associatividade deste tipo de terapia.
Escutar grupalmente uma família é receber os diferentes níveis de expressão, contê-los e fazê-los manter-se juntos e investidos com os objetos possíveis de sentido. É um funcionamento mais arcaico e tudo o que é produzido ou dito é considerado como vindo do conjunto familiar.
A associatividade em terapia familiar:
Segundo Eiguer (1995) embora a comunicação verbal do ponto de vista da observação seja o que mais interessa ao terapeuta e a interpretação se constitua a ferramenta por excelência, pensando no desenvolvimento da atividade fantasmática e portanto da associatividade em terapia familiar, há de se ter muito cuidado em não incorrer no erro de usar técnicas comportamentais ou indutivas, pois não se trata de posicionar-se pedagógicamente. Portanto, ainda segundo este autor, as técnicas mobilizadores em terapia familiar tentam criar um movimento, mas não são, obviamente, uma meta em si. Considerando-se maturidades diferentes e comunicações diferentess, tem por objetivo uma tomada de consciência mais dinâmica dos vínculos familiares.
Eiguer sinaliza que as técnicas mobilizadores podem ser propostas no início da terapia ou mais tarde. Quando a técnica é proposta no início, um dos princípios é que tanto a regra da livre associação quanto a introdução dessas técnicas devem ser enunciadas na forma de um convite para associar sem crítica nem pressão. Quando a técnica é proposta no decorrer do processo, deverá se expor as razões da inovação. São várias as modalidades dentre eles, podemos pensar em psicodrama de inspiração psicanalítica, jogos imaginativos, o jogo, o genograma familiar, desenhos e outros meios gráficos como pintura ou massa de modelagem.
Cabe salientar que dentre essas várias modalidades traduzem uma experiência e não um sentido lógico, a transferência e a contratransferência é maciça e exige elaboração posterior. Destacamos os jogos imaginativos, e o desenho quando pensamos sobre as técnicas.
Os jogos imaginativos, segundo Eiguer (1995) colocam-se no meio caminho do psicodrama e da interpretação associativa. O terapeuta neste caso sugere que situações sejam imaginadas, por exemplo, a partir de um relato ou de uma queixa e atraves desses estímulos pede-se que se façam associações, falem sobre as impressões, pensem em reações.
O jogo, tal como praticado em terapia grupal familiar é um jogo no qual os adultos participam, nestes casos pode-se analisar as capacidades identificatórias dos adultos diante do lúdico das crianças e de sua plasticidade metafórica.
No desenho o que se evidencia é o processo de regressão, nesse sentido, certamente o enquadre é facilitador da expressão dos conteúdos psíquicos em ressonância grupal, dessa forma, todos os adultos e crianças são convidados a desenhar, o que acontece é que os adultos mostram-se mais reticentes pois temem ser considerados infantis. Uma forma de favorecer a integração na atividade e do grupo ocorre quando a folha é dividida e cada un fica com um pedaço para desenhar, muitas vezes este recurso simples, desencadeia atividades fantasmáticas particularmente ricas.
Conclusão
Se Freud deu à sua metapsicologia um estatuto intrapsíquico destacamos neste texto a intersubjetividade como fundamento da transferência familiar a partir do enunciado da preexistência de um psiquismo grupal à psique individual. O suporte teórico-clínico dado por autores contemporaneos como Käes e Ruffiot a partir das suas contribuições do entendimento do grupo e da família com os conceitos de Aparelho Psíquico Grupal e Aparelho Psíquico Familiar respectivamente nos possibilita pensar o enquadre grupal para a família, o que implica, como vimos, em uma escuta grupal e na pertinência da associatividade como mediação para o desenvolvimento das diversas tramas fantasmáticas.
Tratou-se portanto de contemplar a especificidade de um enquadre grupal para a família. Salienta-se que só nos últimos anos na França tem-se experimentado um movimento de estudo familiar especificamente analítico, sobretudo a partir das pesquisas de Ruffiot. Tentamos neste texto esboçar alguns postulados técnicos desse movimento a fim de introduzir o Dispostivo da Terapia Familiar.
Referências bibliográficas:
BLEGER, José. (1970). O Grupo como Instituição e o Grupo nas Instituições. In: Kaes, R. et. al. A instituição e as instituições.Casa do Psicólogo: São Paulo, 2001.
EIGUER, A. O parentesco fantasmático: transferência e contratransferência em terapia familiar psicanalítica. São Paulo: Caso do Psicólogo, 1995.
KÄES et al. A Instituição e as Instituições: estudos psicanalíticos. São Paulo: Casa do Psicólogo;1989.
KÄES, R.. O Grupo e o Sujeito do Grupo. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1997.
MOTTA, I.F.; Rosa, J. T. Violência e sofrimento de crianças e adolescentes na perspectiva winnicottiana. São Paulo: Idéias e Letras, 2008.
RUFFIOT, A., 1979. La Thérapie Psychanalytique de la Famille. L`Appareil Psychique Familial, Tese do terceiro ciclo, Grenoble II.
Gislaine Varela Mayo De Dominicis Psicologa,psicanalista, profª do Curso de Psicoterapia Breve Piscanalítica no Instituto Sedes Sapientiae e coordenadora do” Projeto de grupos e grupos familiares em Psicoterapia Breve”na clínica do Sedes Sapientiae
Karein Castro Reglero Psicologa, especialista em Psicoterapia Breve Psicanalítica pelo Instituto Sedes Sapientiae e participante do “ Projeto de grupos e grupos familiares em Psicoterapia Breve “ na clínica do Instituto Sedes Sapientiae
São Paulo, junho de 2009
segunda-feira, 9 de agosto de 2010
Uma condição chamada amor
Pretendemos com este texto pensar à luz da psicanálise freudiana a forma como se processa um tipo de escolha amorosa para a qual impõe-se certas condições.
Freud no seu texto " Um tipo especial de escolha de objeto feita pelos homens" esboça uma reflexão sobre como se dão as escolhas amorosas no homem neurótico. Parte do pressuposto de que as escolhas são inconscientes, isto quer dizer que no campo do amor, o sujeito escolhe obedecendo a uma série de condições que não são da vontade consciente, à nossa revelia as escolhas não são regidas pelo nosso "eu", obviamente isto não deve eximir o sujeito das suas responsabilidades. Quando se alcança uma compreensão desse tipo as máximas "Cuidado com aquilo que desejas" e " Não quero aquilo que desejo" adquirem um sentido bem mais amplo e prático.
Este tipo de escolhas costuma obedecer a algumas condições:
a) deve existir uma terceira pessoa , quem ele quer é uma mulher comprometida com outro homem (esteja isto implícito ou explícito) e ao mesmo tempo a sua escolha recae sobre uma mulher sobre a qual possa exercer o seu "direito de propriedade";
b) a mulher dita " casta" não exerce sobre ele desejo ou atração;
Este tipo de escolha atende a duas necessidades: a primeira, a de favorecer a rivalidade e hostilidade, contra o homem a quem se rouba mulher; a segunda, advém da suposta leviandade da mulher, é a crise de ciúme ou o ciúmes. É a partir deste ciúme que a mulher adquire seu valor enquanto objeto de desejo. Aqui há outra singularidade, não é "o terceiro prejudicado" quem causa as crises de ciúmes mas "os outros/estranhos ocasionais" que podem efetivamente levantar suspeitas. O marido, neste caso, não é um entrave e sim condição.
Segundo Freud na vida erótica normal o valor da mulher é determinado pela sua integridade sexual quanto mais aproxima-se da " prostituição" mais diminui seu valor. Neste sentido parece singular que os amantes deste tipo coloquem como seus objetos eróticos precisamente aquelas mulheres cuja conduta sexual seja duvidosa. O caráter obsessivo também é peculariedade deste tipo de amante, ou seja, há uma relação dispendiosa do ponto de vista do sofrimento, dedicam-se com certa exclusividade, obedecedendo então a lógica da compulsivdade, além disto há uma imperiosa necessidade de "salvar" a mulher elegida. Pese as singularidades deste tipo de escolha Freud ao analisar todas condições de uma só vez: a falta de liberdade, a sua ligereza sexual, seu alto valor, sua necessidade de sentir ciúmes, fidelidade compatível com a substituição de outro em uma longa série e intenção redentora não fica difícil perceber que a escolha erótica obedece a uma fixação infantil na figura materna. Neste sentido, tanto as características que determinam a escolha quanto a conduta amorosa procede da constelação materna.
A psicanálise nos ensina que aqueles elementos que atuam no inconsciente como algo que tem o sentido de insubstituível contribui para a formação das séries intermináveis, já que a impossibilidade de substituir aquilo que se deseja instala a falta que promove a repeitção ou compulsão.
Entretanto a leviandade do objeto elegido não parece derivar-se do complexo materno. O pensamento consciente do adulto registra, via de regra, a mãe como um objeto de valorosa moralidade. Ocorre que o menino começa a ter acesso às informações sobre a natureza da vida sexual dos adultos, não demora a perceber que os pais também fazem o mesmo. Estas revelações sexuais despertam os desejos infantis atualizando determinados impulsos infantis.
Começa então a desejar a mãe no sentido descoberto e a odiar o pai, está dominado pelo Complexo de Édipo. O fato da mãe ter concedido ao pai seus favores sexuais faz com que isto seja interpretado como um ato de infidelidade. Isto ajuda a compreender a aparente contradição da leviandade ser uma das condições para a eleição do objeto erótico na vida adulta neste tipo de sujeito. Neste sentido, a função da "outra" é sustentar o interdito da mãe, soma-se a isto que caso ocorra o recalque da feminilidade da mãe o menino corre o risco de ter uma predisposição acentuada para a neurose obsessiva.
A tendência a redimir a mulher amada aparece à luz da psicanálise como uma racionalização de um motivo inconsciente ligado mais ao complexo paterno do que ao materno. Quando o menino escuta que "deve a vida a seus pais" surgem, por um lado, impulsos de carinho e por outro, impulsos antagônicos relacionados à necessidade de independência. Impulsos estes que originam "uma dívida a ser paga". Quando a fantasia de salvação é aplicada ao pai predomina um sentimento de independência associada à fantasia de "salvar o pai de um perigo de morte", quando refere-se à mãe, predomina o sentimento de carinho, a mãe deu à vida ao menino. Este impasse da dívida com a mãe faz com que se opere uma mudança de sentido, a salvação da mãe adquire inconscientemente o sentido de dar ou engendrar um filho. Conforme as leis do inconsciente a salvação pode variar de significado conforme seja fantasiado por um homem ou por uma mulher, podendo signficar tanto engendrar um filho quanto parir um filho. Pode ocorrer que a fantasia referida ao pai guarde um sentido posiitvo, talvez expresse o desejo de ter ao pai como filho, isto é, ter um filho que se assemelhe ao pai.
Fonte:
Obras Completas de S. Freud . "Um tipo de escolha do objeto feita pelos homens"
(Contribuições à Psicologia do Amor). Madrid: Lopez Ballesteros y de Torres, 1994. vol.2.
sexta-feira, 6 de agosto de 2010
A doce amarga sensibiidade em Cortázar
A partir da década de 1950, Cortázar tornou-se um dos escritores latino-americanos mais conhecidos, escreveu em quase todos os gêneros literários, além de escritor e ensaísta também participou ativamente como militante político. Desta militância destaca-se alguns livros como Nicarágua tão violentamente doce e Argentina: anos de alambradas culturales. Porém é nos contos que Júlio Cortázar se consagra como um dos maiores escritores do mundo.
Jaime Alazraki * cunhou o termo de "neofantástico" para referir-se a diversos contos de alguns autores como Cortázar entre outros escritores latino-americanos, termo aliás que o Cortázar referia-se nos seus ensaios sobre crítica literária.
Alazraki levanta conclusivos para este termo e no que se refere a carpintaria composicional em Cortázar assim entendemos haver elementos que corroboram a distinção do fantástico todoroviano e do neofantástico: a realidade e a fantasia mantém planos equivalentes de verosimilhança, a simplicidade dos enredos mostra que a fantasia é pautada pelo cotidiano realista e a enunciação em primeira pessoa favorece ambiguidades e subjetividades. Estes aspectos são observáveis em alguns contos de Cortázar, revelando-se com destaque em o "Bestiário", em "Octaedro" e "Em los Reyes".
Ainda em o Escorpião Encalacrado, Arrigucci Jr., o autor pretende penetrar no mundo labiríntico da construção da obra em Cortázar partindo do pressuposto que a obra analisada desafia a tarefa uma vez que a sua narrativa parece exigir uma metalinguagem de segundo grau porque a obra cortaziana tem a sua própria crítica, mas ressalta que tampouco pode-se consider-a´la de forma simplista, como uma crítica apenas colada à narrativa. O jazz, assim como o boxe e o jogo ocupa um lugar importante para a compreensão da poética de Cortázar. Para ele, o jazz é a própria linguagem da invenção.
Aí, mas onde, como in Octaedro
Um quadro de René Magritte representa um caminho que ocupa o centro da tela. Ao pé da pintura o título: Isto não é um cachimbo.
não depende da vontade.
é ele subitamente: agora (antes de começar a escrever; a razão de ter começado a escrever) ou ontem, amanhã, não há nenhuma indicação prévia, ele está ou não está; nem posso dizer que vem, não existe chegada nem partida; ele é como um simples presente que se manifesta ou não neste presente sujo, cheio de ecos de passado e obrigações de futuro
A você que me lê, não lhe terá acontecido aquilo que começa num sonho e volta em muitos sonhos mas não é isso, não é somente um sonho? Alguma coisa que está aí, mas onde, como; alguma coisa que acontece sonhando, é claro, simples sonho mas depois também aí, de outra maneira porque mole e cheio de buracos mas aí enquanto você escova os dentes, no fundo da pia você continua a vê-lo enquanto cospe a pasta de dentes ou enfia a cara na água fria, e já enfraquecendo mas preso ainda ao pijama, à raiz da língua enquanto esquenta o café, aí, mas onde, como, grudado à manhã, com seu silêncio em que já entram os ruídos do dia, o noticiário do rádio que ligamos porque estamos acordados e levantados e o mundo continua andando. Porra, porra, como pode ser, que é isso que foi, que fomos num sonho mas é outra coisa, volta de quando em quando e está aí, mas onde, como, está aí e onde é aí? Por que outra vez Paco esta noite, agora que escrevo neste mesmo quarto, ao lado desta mesma cama onde os lençóis marcam o oco de meu corpo? A você não acontece como a mim com alguém que morreu há trinta anos, que enterramos num meio-dia de sol na Chacarita, levando nos ombros o caixão com os amigos da turma, com os irmãos de Paco?
seu rosto pequeno e pálido, seu corpo apertado de jogador de pelota basca, seus olhos de água, seu cabelo louro penteado com gomalina, a risca do lado, seu terno cinza, seus mocassins pretos, quase sempre uma gravata azul mas às vezes de manga de camisa ou com um roupão de toalha branco (quando me espera em seu quarto da calle Rivadavia, levantando-se com esforço para que eu não perceba que está tão doente, sentando-se na beira da cama embrulhado no roupão branco, pedindo-me um cigarro que lhe proibiram)
Eu digo a você, estes trinta e um anos não são o que interessa, muito pior é esta passagem do sonho às palavras, o abismo entre o que ainda continua aqui mas se vai entregando cada vez mais aos gumes nítidos das coisas deste lado, ao corte das palavras que continuo escrevendo e que já não são aquilo que continua aí, mas onde, como. E se continuo é porque não posso mais, tantas vezes soube que Paco está vivo ou que vai morrer, que está vivo de outra maneira fora da nossa maneira de estar vivos ou de morrermos, que escrevendo ao menos luto contra o inatingível, passo os dedos das palavras pelos vãos desta trama finíssima que ainda me atava ao banheiro, à torradeira, ao primeiro cigarro, que ainda está aí, mas onde, como; repetir, reiterar, fórmulas de encantamento, claro, talvez você que está me lendo também trata às vezes de fixar com alguma salmodia o que vai indo embora, repete estupidamente uma poesia infantil, aranhazinha vizinha, aranhazinha vizinha, fechando os olhos para centrar a cena capital do sonho esfiapado, renunciando aranhazinha, dando de ombros vizinha, o jornaleiro bate à porta, sua mulher olha para você sorrindo e diz Pedrito, ficaram as teias de aranha em seus olhos e tem tanta razão você pensa, aranhazinha vizinha, claro que as teias de aranha.
Não vou perder mais tempo; se escrevo é porque sei, embora não possa explicar-me o que é isso que sei e mal consiga separar o mais grosso, pôr os sonhos de um lado e Paco do outro, mas é preciso fazê-lo se um dia, se agora mesmo em qualquer momento consigo chegar mais longe. Sei que sonho com Paco dado que a lógica, dado que os mortos não andam pela rua e existe um oceano de água e de tempo entre este hotel de Genebra e sua casa da calle Rivadavia, entre sua casa da calle Rivadavia e ele morto há trinta e um anos. Então é óbvio que Paco está vivo (de que inútil, terrível maneira terei de dizê-lo também para me aproximar, para ganhar um pouco de terreno) enquanto durmo; isso se chama sonhar. De tanto em tanto tempo, podem passar semanas e inclusive anos, torno a saber enquanto durmo que ele está vivo e vai morrer; não há nada de extraordinário em sonhar com ele e vê-lo vivo, acontece com tantos outros nos sonhos de todo mundo, também eu às vezes vejo minha avó viva em meus sonhos, ou Alfredo vivo em meus sonhos, Alfredo que foi um dos amigos de Paco e morreu antes dele. Qualquer pessoa sonha com seus mortos e os vê vivos, não é por causa disso que escrevo; se escrevo é porque sei, embora não possa explicar o que sei.
Não foi necessário que voltasse a meu lado uma outra vez, bastou o primeiro sonho para que eu soubesse que ele estava vivo além ou aquém do sonho e outra vez me invadisse a tristeza, como nas noites da calle Rivadavia quando o via ceder terreno ante uma doença que o ia corroendo a partir das vísceras, consumindo-o sem pressa na tortura mais perfeita. A cada noite que volto a sonhá-lo tem sido a mesma coisa, as variações do tema; não é a recorrência que poderia me enganar, o que sei agora já era sabido desde a primeira vez, acho que em Paris na década de cinqüenta, quinze anos depois de sua morte em Buenos Aires. É verdade, naquela época tratei de ser sadio, de escovar melhor os dentes; eu o repeli, Paco, embora alguma coisa dentro de mim já soubesse que você não estava aí como Alfredo, como meus outros mortos; também perante os sonhos se pode ser um canalha e um covarde, e talvez você voltasse por causa disso, não por vingança mas para me provar que era inútil, que você estava vivo e tão doente, que ia morrer, que uma ou outra noite Cláudio viria me procurar em sonhos para chorar no meu ombro, para me dizer Paco está mal, o que podemos fazer, Paco está tão mal. sua cara terrosa e sem sol, sem sequer a lua dos cafés do Once, a vida noturna dos estudantes, um rosto triangular sem sangue, a água azul-clara dos olhos, os lábios descascados pela febre, o cheiro adocicado dos nefríticos, seu sorriso delicado, a voz reduzida ao mínimo, sendo obrigado a respirar entre cada frase, substituindo as palavras por um sinal ou uma careta irônica
Você vê, é isso o que sei, não é muito mas muda tudo. Aborrecem-me as hipóteses tempo espaciais, as n dimensões, sem falar do jargão ocultista, a vida astral e Gustav Meyrinck. Não vou sair para procurar porque me sinto incapaz de ilusão ou talvez, na melhor das hipóteses, da capacidade de entrar em territórios diferentes. Simplesmente estou aqui e disposto, Paco, escrevendo o que mais uma vez vivemos juntos enquanto eu dormia; se em alguma coisa posso ajudá-lo é em saber que você não é só meu sonho, que aí, mas onde, como, que aí estás vivo e sofrendo. Desse aí não posso dizer nada, a não ser que me acontece sonhando e acordado, que é um aí inescapável; porque quando o vejo estou dormindo e não sei pensar, e quando penso estou acordado mas só posso pensar; imagem ou idéia são sempre aquele aí, mas onde, aquele aí, mas como.
reler isto é abaixar a cabeça, xingar de cara contra um novo cigarro, perguntar-se pelo sentido de estar batendo nesta máquina, para quem, me diz só, para quem que não encolha os ombros e arquive rápido, ponha a etiqueta e passe a outra coisa, a outro conto
E além disso, Paco, por quê. Vou deixar para o fim mas é o mais duro, é esta rebelião e este asco contra o que acontece a você. Você há de imaginar que não acredito que você esteja no inferno, acharíamos tanta graça se pudéssemos falar nisso. Mas tem de haver um porquê, não é verdade, você mesmo há de se perguntar por que está vivo aí onde está se vai morrer de novo, se outra vez Cláudio precisa vir me buscar, se como há um instante vou subir a escada da calle Rivadavia para encontrá-lo em seu quarto de doente, com aquela cara sem sangue e os olhos como de água, sorrindo-me com lábios desbotados e ressequidos, dando-me uma mão que parece um papelzinho. E sua voz, Paco, aquela voz que conheci no fim, articulando precariamente as poucas palavras de um cumprimento ou uma piada. É evidente que você não está na casa da calle Rivadavia, e que eu em Genebra não subi a escada de sua casa em Buenos Aires, isso é o instrumental do sonho e como sempre ao acordar as imagens se desligam e só fica você deste lado, você que não é um sonho, que esteve me esperando em tantos sonhos mas como quem marca encontro num lugar neutro, numa estação ou num café, o outro instrumental que esquecemos mal começamos a andar
como dizê-lo, como continuar, esfacelar a razão repetindo que não é somente um sonho, que se o vejo em sonhos como a qualquer de meus mortos, ele é outra coisa, está aí, dentro e fora, vivo se bem queo que vejo dele, o que ouço dele: a doença o aperta, fixa-o nesta última aparência que é minha recordação dele há trinta e um anos; assim está agora, assim é
Por que é que você vive se adoeceu outra vez, se vai morrer outra vez? E quando morrer, Paco, o que vai acontecer entre nós dois? Vou saber que você morreu, vou sonhar, já que o sonho é a única zona onde posso vê-lo, que o enterramos de novo? E depois disso, vou deixar de sonhar, saberei que está morto de verdade? Porque já faz muitos anos, Paco, que você está vivo aí onde nos encontramos, mas com uma vida inútil e murcha, desta vez sua doença dura interminavelmente mais que a outra, passam-se semanas ou meses, passa Paris ou Quito ou Genebra e então vem Cláudio e me abraça, Cláudio tão jovem e garoto chorando quieto no meu ombro, avisando-me que você está mal, que suba para vê-lo, às vezes é um café mas quase sempre é preciso subir a escada estreita daquela casa que já puseram abaixo, de um táxi olhei há um ano aquele quarteirão de Rivadavia na altura de Once e soube que a casa já não estava lá ou que a haviam reformado, que faltam a porta e a escada estreita que levava ao primeiro andar, aos quartos de pé-direito alto e de gessos amarelos, passam-se semanas ou meses e de novo sei que tenho de ir vê-lo, ou simplesmente o encontro em qualquer lugar ou sei que está em qualquer lugar embora não o veja, e nada acaba, nada começa nem acaba enquanto durmo ou depois no escritório ou aqui escrevendo, você vivo para quê, você vivo por quê, Paco, aí, mas onde, meu velho, onde e até quando.
apresentar provas de ar, montinhos de cinza como provas, seguranças de vácuo; ainda pior com palavras, desde palavras incapazes de vertigem, etiquetas anteriores à leitura, essa outra etiqueta final

noção de território contíguo, de quarto ao lado; tempo de ao lado; e ao mesmo tempo nada disso, fácil demais refugiar-se no binário; como se tudo dependesse de mim, de um simples código que um gesto ou um salto me dariam, e saber que não, que minha vida me encerra no que sou, na própria margem mas
tratar de dizer de outra maneira, insistir; por esperança, procurando o laboratório da meia-noite, uma alquimia impensável, uma transmutação
Não sirvo para ir mais longe, tentar qualquer dos caminhos que outros seguem à procura de seus mortos, a fé ou os cogumelos ou as metafísicas. Sei que você não está morto, que as mesas de três pés são inúteis; não consultarei videntes porque eles também têm seus códigos, olhariam para mim como um louco. Só posso acreditar naquilo que sei, continuar por minha calçada como você pela sua, diminuído e doente aí onde você está, sem me incomodar, sem me pedir nada mas apoiando-se de alguma forma em mim que sei que você está vivo, nesse elo que o enlaça a essa zona à qual você não pertence mas que o sustenta sei lá por quê, sei lá para quê. E por isso, penso, há momentos em que lhe faço falta e é então que chega Cláudio ou que de repente o encontro no café onde jogávamos bilhar ou no quarto de cima onde púnhamos discos de Ravel e líamos Federico e Rilke, e a alegria deslumbrada que me dá saber que você está vivo é mais forte que a palidez de seu rosto e a fria fraqueza de sua mão; porque em pleno sonho não me engano como me engana às vezes ver Alfredo ou Juan Carlos, a alegria não é essa horrível decepção ao acordar e compreender que se sonhou, com você eu acordo e nada muda senão que deixei de vê-lo, sei que você está vivo aí onde está, numa terra que é esta terra e não uma esfera astral ou um limbo abominável; e a alegria perdura e está aqui enquanto escrevo, e não contradiz a tristeza de tê-lo visto mais uma vez tão mal, ainda é a esperança, Paco, se escrevo é porque espero embora cada vez seja a mesma coisa, a escada que leva a seu quarto, o café onde entre duas carambolas você me dirá que esteve doente mas que já vai passando, mentindo-me com um pobre sorriso; a esperança de que alguma vez seja de outra maneira, que Cláudio não tenha de vir me buscar e chorar abraçado a mim, pedindo-me que vá vê-lo.
embora seja para estar outra vez perto dele quando morrer como naquela noite de outubro, os quatro amigos, a lâmpada fria pendente do teto, a última injeção de coramina, o peito nu e gelado, os olhos abertos que um de nós fechou chorando
E você que me lê pensará que é invenção; pouco importa, há muito as pessoas põem à conta de minha imaginação o que realmente vivi, ou vice-versa. Olhe, eu nunca encontrei Paco na cidade da qual me falara uma vez ou outra, uma cidade com que sonho de vez em quando e que é como o recinto de uma morte infinitamente adiada, de procuras turvas e de encontros impossíveis. Nada teria sido mais natural do que vê-lo aí, mas aí não o encontrei jamais nem acredito que o encontre. Ele tem seu próprio território, gato em seu mundo recortado e preciso, a casa da calle Rivadavia, o café do bilhar, alguma esquina do Once. Se o tivesse encontrado na cidade dos arcos e do canal do norte, talvez o somasse à maquinaria das procuras, aos intermináveis quartos do hotel, aos elevadores que se deslocam horizontalmente, ao pesadelo elástico que volta de tempos em tempos; teria sido mais fácil explicar sua presença, imaginá-la parte daquela decoração que ele teria empobrecido limando-a, incorporando-a a suas brincadeiras desajeitadas. Mas Paco está em suas coisas, gato solitário assomando de sua própria zona sem misturas; os que vêm me procurar são só os seus, é Cláudio ou o pai, uma vez ou outra seu irmão mais velho. Quando acordo depois de tê-lo encontrado em sua casa ou no café, vendo-lhe a morte nos olhos como de água, o resto se perde no fragor da vigília, só ele fica comigo enquanto escovo os dentes e ouço o noticiário antes de sair; já não sua imagem percebida com a cruel precisão lenticular do sonho (o terno cinza, a gravata azul, os mocassins pretos), mas a certeza de que impensavelmente continua aí e que sofre.
sequer esperança no absurdo, sabê-lo outra vez feliz, vê-lo num torneio de pelota, apaixonado por essas moças com que dançava no clube pequena larva cinza, anímula vágula blândula, macaquinho tremendo de frio sob os cobertores, estendendo-me uma mão de manequim, para quê, por quê
Não pude fazer com que vivesse isso, escrevo assim mesmo para você que me lê porque é uma maneira de quebrar o cerco, de pedir que você procure em si mesmo se não tem também um desses gatos, desses mortos que amou e que estão nesse aí que já me exaspera mencionar com palavras de papel. Faço-o por Paco, como se isto ou outra coisa qualquer adiantasse alguma coisa, ajudasse-o a curar-se ou a morrer, a fazer com que Cláudio não voltasse para me buscar, ou simplesmente a sentir por fim que tudo era uma ilusão, que só sonho com Paco e que ele sei lá por que se segura um pouco mais aos meus tornozelos do que Alfredo, do que meus outros mortos. É o que você estará pensando, que outra coisa poderia pensar a menos que isso também tenha lhe acontecido com alguém, mas nunca ninguém me falou de coisas assim e também não o espero de você, simplesmente tinha de dizer e esperar, dizer e outra vez me deitar e viver como qualquer um, fazendo o possível para esquecer que Paco continua aí, que nada termina porque amanhã ou no ano que vem eu acordarei sabendo como agora que Paco continua vivo, que me chamou porque esperava alguma coisa de mim, e que não posso ajudá-lo porque está doente, porque está morrendo.
Fontes:
ARRIGUCCI, JR., Davi. O escorpião encalacrado. a poética da destruição em Júlio Cortázar. São Paulo: Copanhia das Letras, 1995.
CORTÁZAR, Julio. Octaedro. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1977.
TODOROV, Tzvetan. Introdução à literatura fantástica. São Paulo: Perspectiva, 1992.
*O neofantástico na ficcção breve contemporânea lationamericana, portuguesa e moçambicana: Julio Cortazar, Almeida Faria e Mia Couto. Disponível em :
http://e-archivo.uc3m.es/bitstream/10016/8713/1/neofantastico_LITERATURA_2008.pdf [Data de consulta : 26 de Julho de 2010].
Jaime Alazraki * cunhou o termo de "neofantástico" para referir-se a diversos contos de alguns autores como Cortázar entre outros escritores latino-americanos, termo aliás que o Cortázar referia-se nos seus ensaios sobre crítica literária.
Alazraki levanta conclusivos para este termo e no que se refere a carpintaria composicional em Cortázar assim entendemos haver elementos que corroboram a distinção do fantástico todoroviano e do neofantástico: a realidade e a fantasia mantém planos equivalentes de verosimilhança, a simplicidade dos enredos mostra que a fantasia é pautada pelo cotidiano realista e a enunciação em primeira pessoa favorece ambiguidades e subjetividades. Estes aspectos são observáveis em alguns contos de Cortázar, revelando-se com destaque em o "Bestiário", em "Octaedro" e "Em los Reyes".
Ainda em o Escorpião Encalacrado, Arrigucci Jr., o autor pretende penetrar no mundo labiríntico da construção da obra em Cortázar partindo do pressuposto que a obra analisada desafia a tarefa uma vez que a sua narrativa parece exigir uma metalinguagem de segundo grau porque a obra cortaziana tem a sua própria crítica, mas ressalta que tampouco pode-se consider-a´la de forma simplista, como uma crítica apenas colada à narrativa. O jazz, assim como o boxe e o jogo ocupa um lugar importante para a compreensão da poética de Cortázar. Para ele, o jazz é a própria linguagem da invenção.
Aí, mas onde, como in Octaedro
Um quadro de René Magritte representa um caminho que ocupa o centro da tela. Ao pé da pintura o título: Isto não é um cachimbo.
A Paco, que gostava de meus relatos. (Dedicatória de Bestiário, 1951)
é ele subitamente: agora (antes de começar a escrever; a razão de ter começado a escrever) ou ontem, amanhã, não há nenhuma indicação prévia, ele está ou não está; nem posso dizer que vem, não existe chegada nem partida; ele é como um simples presente que se manifesta ou não neste presente sujo, cheio de ecos de passado e obrigações de futuro
A você que me lê, não lhe terá acontecido aquilo que começa num sonho e volta em muitos sonhos mas não é isso, não é somente um sonho? Alguma coisa que está aí, mas onde, como; alguma coisa que acontece sonhando, é claro, simples sonho mas depois também aí, de outra maneira porque mole e cheio de buracos mas aí enquanto você escova os dentes, no fundo da pia você continua a vê-lo enquanto cospe a pasta de dentes ou enfia a cara na água fria, e já enfraquecendo mas preso ainda ao pijama, à raiz da língua enquanto esquenta o café, aí, mas onde, como, grudado à manhã, com seu silêncio em que já entram os ruídos do dia, o noticiário do rádio que ligamos porque estamos acordados e levantados e o mundo continua andando. Porra, porra, como pode ser, que é isso que foi, que fomos num sonho mas é outra coisa, volta de quando em quando e está aí, mas onde, como, está aí e onde é aí? Por que outra vez Paco esta noite, agora que escrevo neste mesmo quarto, ao lado desta mesma cama onde os lençóis marcam o oco de meu corpo? A você não acontece como a mim com alguém que morreu há trinta anos, que enterramos num meio-dia de sol na Chacarita, levando nos ombros o caixão com os amigos da turma, com os irmãos de Paco?
seu rosto pequeno e pálido, seu corpo apertado de jogador de pelota basca, seus olhos de água, seu cabelo louro penteado com gomalina, a risca do lado, seu terno cinza, seus mocassins pretos, quase sempre uma gravata azul mas às vezes de manga de camisa ou com um roupão de toalha branco (quando me espera em seu quarto da calle Rivadavia, levantando-se com esforço para que eu não perceba que está tão doente, sentando-se na beira da cama embrulhado no roupão branco, pedindo-me um cigarro que lhe proibiram)
Já sei que não se pode escrever isto que estou escrevendo, na certa é outra das maneiras do dia para acabar com as débeis operações do sonho; agora irei trabalhar, me encontrarei com tradutores e revisores na conferência de Genebra onde estou por quatro semanas, lerei as notícias do Chile, esse outro pesadelo que nenhuma pasta de dentes desgruda da boca; por que então pular da cama à máquina, da casa da calle Rivadavia em Buenos Aires, onde acabo de estar com Paco, a esta máquina que não servirá de nada agora que estou acordado e sei que passaram trinta e um anos desde aquela manhã de outubro, aquele nicho num columbário, as pobres flores que quase ninguém levou porque raios se nos importávamos com as flores enquanto enterrávamos Paco.
Eu digo a você, estes trinta e um anos não são o que interessa, muito pior é esta passagem do sonho às palavras, o abismo entre o que ainda continua aqui mas se vai entregando cada vez mais aos gumes nítidos das coisas deste lado, ao corte das palavras que continuo escrevendo e que já não são aquilo que continua aí, mas onde, como. E se continuo é porque não posso mais, tantas vezes soube que Paco está vivo ou que vai morrer, que está vivo de outra maneira fora da nossa maneira de estar vivos ou de morrermos, que escrevendo ao menos luto contra o inatingível, passo os dedos das palavras pelos vãos desta trama finíssima que ainda me atava ao banheiro, à torradeira, ao primeiro cigarro, que ainda está aí, mas onde, como; repetir, reiterar, fórmulas de encantamento, claro, talvez você que está me lendo também trata às vezes de fixar com alguma salmodia o que vai indo embora, repete estupidamente uma poesia infantil, aranhazinha vizinha, aranhazinha vizinha, fechando os olhos para centrar a cena capital do sonho esfiapado, renunciando aranhazinha, dando de ombros vizinha, o jornaleiro bate à porta, sua mulher olha para você sorrindo e diz Pedrito, ficaram as teias de aranha em seus olhos e tem tanta razão você pensa, aranhazinha vizinha, claro que as teias de aranha.
quando sonho com Alfredo, com outros mortos, pode ser qualquer de suas tantas imagens, das opções do tempo e da vida; vejo Alfredo dirigindo seu Ford preto, jogando pôquer, casando com Zulema, saindo comigo da escola Mariano Acosta para ir tomar um vermute em La Veria do Once; depois, no fim, antes, qualquer dos dias ao longo de qualquer dos anos, mas Paco não, Paco é somente o quarto nu e frio de sua casa, a cama de ferro, o roupão de toalha branco, e se nos encontramos no café e ele está com seu terno cinza e gravata azul, a cara é a mesma, a terrosa máscara final, os silêncio de um cansaço insoldável.
Não vou perder mais tempo; se escrevo é porque sei, embora não possa explicar-me o que é isso que sei e mal consiga separar o mais grosso, pôr os sonhos de um lado e Paco do outro, mas é preciso fazê-lo se um dia, se agora mesmo em qualquer momento consigo chegar mais longe. Sei que sonho com Paco dado que a lógica, dado que os mortos não andam pela rua e existe um oceano de água e de tempo entre este hotel de Genebra e sua casa da calle Rivadavia, entre sua casa da calle Rivadavia e ele morto há trinta e um anos. Então é óbvio que Paco está vivo (de que inútil, terrível maneira terei de dizê-lo também para me aproximar, para ganhar um pouco de terreno) enquanto durmo; isso se chama sonhar. De tanto em tanto tempo, podem passar semanas e inclusive anos, torno a saber enquanto durmo que ele está vivo e vai morrer; não há nada de extraordinário em sonhar com ele e vê-lo vivo, acontece com tantos outros nos sonhos de todo mundo, também eu às vezes vejo minha avó viva em meus sonhos, ou Alfredo vivo em meus sonhos, Alfredo que foi um dos amigos de Paco e morreu antes dele. Qualquer pessoa sonha com seus mortos e os vê vivos, não é por causa disso que escrevo; se escrevo é porque sei, embora não possa explicar o que sei.
lhe, quando sonho com Alfredo a pasta de dentes cumpre muito bem sua tarefa; resta a melancolia, a insistência das recordações antigas, depois começa o dia sem Alfredo. Mas com Paco é como se ele acordasse também comigo, pode dar-se ao luxo de dissolver quase em seguida as vividas seqüências da noite e continuar presente e fora do sonho, desmentindo-o com uma força que Alfredo, que ninguém tem em pleno dia, depois do banho de chuveiro e do jornal. O que lhe importa que eu me lembre apenas do momento em que seu irmão Cláudio veio me buscar para me dizer que Paco estava muito doente, e que as cenas sucessivas já esfiapadas mas ainda rigorosas e coerentes no esquecimento, um pouco como a marca de meu corpo ainda visível nos lençóis, se diluam como todos os sonhos. O que então sei é que ter sonhado não é mais do que parte de alguma coisa diferente, uma espécie de superposição, uma outra zona, se bem que a expressão seja incorreta, mas também é preciso superpor ou violar as palavras se quero aproximar-me, se espero alguma vez estar. Grosseiramente, como o estou sentindo agora, Paco está vivo embora vá morrer, e se alguma coisa sei é que nisso nada há de sobrenatural; tenho minha opinião sobre os fantasmas mas Paco não é um fantasma, Paco é um homem, um homem que foi até há trinta e um anos meu colega de estudos, meu melhor amigo.
Não foi necessário que voltasse a meu lado uma outra vez, bastou o primeiro sonho para que eu soubesse que ele estava vivo além ou aquém do sonho e outra vez me invadisse a tristeza, como nas noites da calle Rivadavia quando o via ceder terreno ante uma doença que o ia corroendo a partir das vísceras, consumindo-o sem pressa na tortura mais perfeita. A cada noite que volto a sonhá-lo tem sido a mesma coisa, as variações do tema; não é a recorrência que poderia me enganar, o que sei agora já era sabido desde a primeira vez, acho que em Paris na década de cinqüenta, quinze anos depois de sua morte em Buenos Aires. É verdade, naquela época tratei de ser sadio, de escovar melhor os dentes; eu o repeli, Paco, embora alguma coisa dentro de mim já soubesse que você não estava aí como Alfredo, como meus outros mortos; também perante os sonhos se pode ser um canalha e um covarde, e talvez você voltasse por causa disso, não por vingança mas para me provar que era inútil, que você estava vivo e tão doente, que ia morrer, que uma ou outra noite Cláudio viria me procurar em sonhos para chorar no meu ombro, para me dizer Paco está mal, o que podemos fazer, Paco está tão mal. sua cara terrosa e sem sol, sem sequer a lua dos cafés do Once, a vida noturna dos estudantes, um rosto triangular sem sangue, a água azul-clara dos olhos, os lábios descascados pela febre, o cheiro adocicado dos nefríticos, seu sorriso delicado, a voz reduzida ao mínimo, sendo obrigado a respirar entre cada frase, substituindo as palavras por um sinal ou uma careta irônica
Você vê, é isso o que sei, não é muito mas muda tudo. Aborrecem-me as hipóteses tempo espaciais, as n dimensões, sem falar do jargão ocultista, a vida astral e Gustav Meyrinck. Não vou sair para procurar porque me sinto incapaz de ilusão ou talvez, na melhor das hipóteses, da capacidade de entrar em territórios diferentes. Simplesmente estou aqui e disposto, Paco, escrevendo o que mais uma vez vivemos juntos enquanto eu dormia; se em alguma coisa posso ajudá-lo é em saber que você não é só meu sonho, que aí, mas onde, como, que aí estás vivo e sofrendo. Desse aí não posso dizer nada, a não ser que me acontece sonhando e acordado, que é um aí inescapável; porque quando o vejo estou dormindo e não sei pensar, e quando penso estou acordado mas só posso pensar; imagem ou idéia são sempre aquele aí, mas onde, aquele aí, mas como.
reler isto é abaixar a cabeça, xingar de cara contra um novo cigarro, perguntar-se pelo sentido de estar batendo nesta máquina, para quem, me diz só, para quem que não encolha os ombros e arquive rápido, ponha a etiqueta e passe a outra coisa, a outro conto
E além disso, Paco, por quê. Vou deixar para o fim mas é o mais duro, é esta rebelião e este asco contra o que acontece a você. Você há de imaginar que não acredito que você esteja no inferno, acharíamos tanta graça se pudéssemos falar nisso. Mas tem de haver um porquê, não é verdade, você mesmo há de se perguntar por que está vivo aí onde está se vai morrer de novo, se outra vez Cláudio precisa vir me buscar, se como há um instante vou subir a escada da calle Rivadavia para encontrá-lo em seu quarto de doente, com aquela cara sem sangue e os olhos como de água, sorrindo-me com lábios desbotados e ressequidos, dando-me uma mão que parece um papelzinho. E sua voz, Paco, aquela voz que conheci no fim, articulando precariamente as poucas palavras de um cumprimento ou uma piada. É evidente que você não está na casa da calle Rivadavia, e que eu em Genebra não subi a escada de sua casa em Buenos Aires, isso é o instrumental do sonho e como sempre ao acordar as imagens se desligam e só fica você deste lado, você que não é um sonho, que esteve me esperando em tantos sonhos mas como quem marca encontro num lugar neutro, numa estação ou num café, o outro instrumental que esquecemos mal começamos a andar
como dizê-lo, como continuar, esfacelar a razão repetindo que não é somente um sonho, que se o vejo em sonhos como a qualquer de meus mortos, ele é outra coisa, está aí, dentro e fora, vivo se bem queo que vejo dele, o que ouço dele: a doença o aperta, fixa-o nesta última aparência que é minha recordação dele há trinta e um anos; assim está agora, assim é
Por que é que você vive se adoeceu outra vez, se vai morrer outra vez? E quando morrer, Paco, o que vai acontecer entre nós dois? Vou saber que você morreu, vou sonhar, já que o sonho é a única zona onde posso vê-lo, que o enterramos de novo? E depois disso, vou deixar de sonhar, saberei que está morto de verdade? Porque já faz muitos anos, Paco, que você está vivo aí onde nos encontramos, mas com uma vida inútil e murcha, desta vez sua doença dura interminavelmente mais que a outra, passam-se semanas ou meses, passa Paris ou Quito ou Genebra e então vem Cláudio e me abraça, Cláudio tão jovem e garoto chorando quieto no meu ombro, avisando-me que você está mal, que suba para vê-lo, às vezes é um café mas quase sempre é preciso subir a escada estreita daquela casa que já puseram abaixo, de um táxi olhei há um ano aquele quarteirão de Rivadavia na altura de Once e soube que a casa já não estava lá ou que a haviam reformado, que faltam a porta e a escada estreita que levava ao primeiro andar, aos quartos de pé-direito alto e de gessos amarelos, passam-se semanas ou meses e de novo sei que tenho de ir vê-lo, ou simplesmente o encontro em qualquer lugar ou sei que está em qualquer lugar embora não o veja, e nada acaba, nada começa nem acaba enquanto durmo ou depois no escritório ou aqui escrevendo, você vivo para quê, você vivo por quê, Paco, aí, mas onde, meu velho, onde e até quando.
apresentar provas de ar, montinhos de cinza como provas, seguranças de vácuo; ainda pior com palavras, desde palavras incapazes de vertigem, etiquetas anteriores à leitura, essa outra etiqueta final

noção de território contíguo, de quarto ao lado; tempo de ao lado; e ao mesmo tempo nada disso, fácil demais refugiar-se no binário; como se tudo dependesse de mim, de um simples código que um gesto ou um salto me dariam, e saber que não, que minha vida me encerra no que sou, na própria margem mas
tratar de dizer de outra maneira, insistir; por esperança, procurando o laboratório da meia-noite, uma alquimia impensável, uma transmutação
Não sirvo para ir mais longe, tentar qualquer dos caminhos que outros seguem à procura de seus mortos, a fé ou os cogumelos ou as metafísicas. Sei que você não está morto, que as mesas de três pés são inúteis; não consultarei videntes porque eles também têm seus códigos, olhariam para mim como um louco. Só posso acreditar naquilo que sei, continuar por minha calçada como você pela sua, diminuído e doente aí onde você está, sem me incomodar, sem me pedir nada mas apoiando-se de alguma forma em mim que sei que você está vivo, nesse elo que o enlaça a essa zona à qual você não pertence mas que o sustenta sei lá por quê, sei lá para quê. E por isso, penso, há momentos em que lhe faço falta e é então que chega Cláudio ou que de repente o encontro no café onde jogávamos bilhar ou no quarto de cima onde púnhamos discos de Ravel e líamos Federico e Rilke, e a alegria deslumbrada que me dá saber que você está vivo é mais forte que a palidez de seu rosto e a fria fraqueza de sua mão; porque em pleno sonho não me engano como me engana às vezes ver Alfredo ou Juan Carlos, a alegria não é essa horrível decepção ao acordar e compreender que se sonhou, com você eu acordo e nada muda senão que deixei de vê-lo, sei que você está vivo aí onde está, numa terra que é esta terra e não uma esfera astral ou um limbo abominável; e a alegria perdura e está aqui enquanto escrevo, e não contradiz a tristeza de tê-lo visto mais uma vez tão mal, ainda é a esperança, Paco, se escrevo é porque espero embora cada vez seja a mesma coisa, a escada que leva a seu quarto, o café onde entre duas carambolas você me dirá que esteve doente mas que já vai passando, mentindo-me com um pobre sorriso; a esperança de que alguma vez seja de outra maneira, que Cláudio não tenha de vir me buscar e chorar abraçado a mim, pedindo-me que vá vê-lo.
embora seja para estar outra vez perto dele quando morrer como naquela noite de outubro, os quatro amigos, a lâmpada fria pendente do teto, a última injeção de coramina, o peito nu e gelado, os olhos abertos que um de nós fechou chorando
E você que me lê pensará que é invenção; pouco importa, há muito as pessoas põem à conta de minha imaginação o que realmente vivi, ou vice-versa. Olhe, eu nunca encontrei Paco na cidade da qual me falara uma vez ou outra, uma cidade com que sonho de vez em quando e que é como o recinto de uma morte infinitamente adiada, de procuras turvas e de encontros impossíveis. Nada teria sido mais natural do que vê-lo aí, mas aí não o encontrei jamais nem acredito que o encontre. Ele tem seu próprio território, gato em seu mundo recortado e preciso, a casa da calle Rivadavia, o café do bilhar, alguma esquina do Once. Se o tivesse encontrado na cidade dos arcos e do canal do norte, talvez o somasse à maquinaria das procuras, aos intermináveis quartos do hotel, aos elevadores que se deslocam horizontalmente, ao pesadelo elástico que volta de tempos em tempos; teria sido mais fácil explicar sua presença, imaginá-la parte daquela decoração que ele teria empobrecido limando-a, incorporando-a a suas brincadeiras desajeitadas. Mas Paco está em suas coisas, gato solitário assomando de sua própria zona sem misturas; os que vêm me procurar são só os seus, é Cláudio ou o pai, uma vez ou outra seu irmão mais velho. Quando acordo depois de tê-lo encontrado em sua casa ou no café, vendo-lhe a morte nos olhos como de água, o resto se perde no fragor da vigília, só ele fica comigo enquanto escovo os dentes e ouço o noticiário antes de sair; já não sua imagem percebida com a cruel precisão lenticular do sonho (o terno cinza, a gravata azul, os mocassins pretos), mas a certeza de que impensavelmente continua aí e que sofre.
sequer esperança no absurdo, sabê-lo outra vez feliz, vê-lo num torneio de pelota, apaixonado por essas moças com que dançava no clube pequena larva cinza, anímula vágula blândula, macaquinho tremendo de frio sob os cobertores, estendendo-me uma mão de manequim, para quê, por quê
Não pude fazer com que vivesse isso, escrevo assim mesmo para você que me lê porque é uma maneira de quebrar o cerco, de pedir que você procure em si mesmo se não tem também um desses gatos, desses mortos que amou e que estão nesse aí que já me exaspera mencionar com palavras de papel. Faço-o por Paco, como se isto ou outra coisa qualquer adiantasse alguma coisa, ajudasse-o a curar-se ou a morrer, a fazer com que Cláudio não voltasse para me buscar, ou simplesmente a sentir por fim que tudo era uma ilusão, que só sonho com Paco e que ele sei lá por que se segura um pouco mais aos meus tornozelos do que Alfredo, do que meus outros mortos. É o que você estará pensando, que outra coisa poderia pensar a menos que isso também tenha lhe acontecido com alguém, mas nunca ninguém me falou de coisas assim e também não o espero de você, simplesmente tinha de dizer e esperar, dizer e outra vez me deitar e viver como qualquer um, fazendo o possível para esquecer que Paco continua aí, que nada termina porque amanhã ou no ano que vem eu acordarei sabendo como agora que Paco continua vivo, que me chamou porque esperava alguma coisa de mim, e que não posso ajudá-lo porque está doente, porque está morrendo.
Fontes:
ARRIGUCCI, JR., Davi. O escorpião encalacrado. a poética da destruição em Júlio Cortázar. São Paulo: Copanhia das Letras, 1995.
CORTÁZAR, Julio. Octaedro. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1977.
TODOROV, Tzvetan. Introdução à literatura fantástica. São Paulo: Perspectiva, 1992.
*O neofantástico na ficcção breve contemporânea lationamericana, portuguesa e moçambicana: Julio Cortazar, Almeida Faria e Mia Couto. Disponível em :
http://e-archivo.uc3m.es/bitstream/10016/8713/1/neofantastico_LITERATURA_2008.pdf [Data de consulta : 26 de Julho de 2010].
quinta-feira, 1 de julho de 2010
Pedagogia Branca
"Em algum lugar do passado" em A Arte do Romance o escritor tcheco Milan Kundera disserta sobre o conceito "kakfiano". Inicia o texto contando um caso de não fiçção de um engenheiro que se viu obrigado a exilar-se de Praga por,supostamente, caluniar a sua pátria socialista estando em Londres. Busca o desmentido, os órgãos responsáveis acham tudo muito constrangedor mas nada fazem a respeito, é garantido que nada lhe ocorrerá. Entretanto se dá conta de que é vigiado, que o seu telefone está censurado,que é seguido na rua. Não consegue dormir, tem pesadelos, a situação torna-se insustentável, assume riscos reais para deixar ilegalmente o seu país, torna-se para sempre um emigrado.
Parece que o termo kakfiano representaria um processo através do qual ocorre uma despersonalização ou burocratização do ser nas sociedades totalitárias e as ditas democráticas devido a uma concentração progressiva do poder tendendo a se divinizar. Alguns critérios são necessários para que um fenômeno seja caracterizado como kakfiano:
a) confronto com um poder que tem o caráter de labirinto a perder de vista, uma vez que a instituição em Kafka tem um mecanismo peculiar que obedece as suas próprias leis;
b) no universo kakfiano, o dossiê parece como idéia platônica, ele representa a verdadeira realidade enquanto que a existência física é reflexo projetado;
c) em todo lugar em que ocorre o endeusamento do poder se produz automaticamente o fenômeno pseudo-teológico;
d)no universo kakfiano, o castigo procura a falta.
e)no mundo kakfiano, o cômico não representa complemento para aliviar a tragicidade para torná-lo mais leve ao contrário, o destrói, o engenheiro perde a sua pátria e todo o auditório ri.
Em um ponto do ensaio o autor sinaliza que os mecanismos psicológicos que funcionam no interior dos grandes acontecimentos históricos são os mesmos que regem as stiuações íntimas. A famosa carta que Kafka escreveu e nunca mandou a seu pai demostra, segundo Kundera, de onde ele tirou o seu conhecimento da técnica de culpabilização que se tornou tema de seus romances e alguns do seus contos.
A trama do segredo tanto nas sociedades totalitárias quanto nas relações que se estabelecem entre as crianças e o poder endeusado dos pais não passa desapercebido. Tanto uma quanto a outra tentam abolir a fronteira entre o público e o privado. O poder que se torna mais opaco exige cada vez mais transparência na vida dos seus cidadãos do mesmo modo que uma criança não tem direito ao segredo diante do seu pai e de sua mãe.
O agrimensor K. não quer ser aceito pelos seus pares mas por uma instituição e para alcançar isso, ele deve renunciar a sua solidão. A solidão violada é, segundo Kundera, a obsessão de Kafka. A história de Joseph K. começa pela violação da intimidade, dois desconhecidos vêm prendê-lo na cama.
A partir do exposto pretendemos articular a "técnica de culpabilização" no universo kakfiano com os questionamentos da autora Miller (*) sobre a Pedagogia Blanca para refletir sobre o tema transversal da violação da intimidade.
Miller tem o intuito de sensibilizar o público dos sofrimentos da primeira infância. Na primeira parte do livro dedica-se à descrição da "Pedagogia Negra”, ou seja, dos métodos educativos coercitivos. Na segunda parte descreve a infância de Christiane F., Jurguen Bartsch e Adolf Hitler como paradigmas do "aniquilamento da alma infantil", ainda problematiza, entre outros temas, a "Pedagogia Blanca" e as implicações do "Falso Yo" dos pais no desenvolvimento dos filhos. Neste sentido, a autora faz uma leitura possível do suicídio da poeta Sylvia Plath.
A sua linha de trabalho baseia-se em uma definição da primeira infância distinta do modelo pulsional da psicanálise, aponta a necessidade de estabelecer uma distinção clara entre o sentimento de culpa e o luto.
A sua postura antipedagógica não se dirige contra uma forma particular de educação mas contra a educação como um todo, inclusive a antiautoritária. Enfatiza a importância do ambiente e a determinação do inconsciente das pessoas que cuidam da criança como etiologia de patologias na medida em que exercem uma influência essencial no desenvolvimento da criança.
O ponto que nos interessa é a sua tese antipedagógica, ressalta que muito provavelmente as pessoas que cresceram dentro de um sistema de valores baseados nos dogmas da “Pegagogia Negra”, caso não tenham tido experiências psicanalíticas de nenhum tipo, não verão com bons olhos a sua postura, vista inclusive, segundo ela, com certo desdén uma vez que é tida como uma postura ingênua otimista.
Acredita ser a pedagogia de Rousseau manipuladora no sentido mais profundo do termo. Miller baseia-se no estudo que Ekkehard von Braunmuhl fez do livro Emilio, vejamos um parágrafo que sintetiza bem a idéia do romance : "Seguid el camino opuesto con vuestro educando. Hacedle creer siempre que él es el maestro, pero en realidad sedlo vosotros. No hay sumisión más perfecta que la que conserva las apariencias de liberdad. De este modo se somete incluso la voluntad. Ese pobre niño que nada sabe, nada puede y nada conoce no está totalmente a vuestra merced?" O livro de Rousseau é um ensaio pedagógico sob a forma de romance que pretende fazer da criança um adulto bom.
O fato de considerar a educação perniciosa não quer dizer que a criança deva crescer sem tutela, o que a criança necessitaria para se desenvolver, segundo ela, é respeito, tolerância em relação aos seus sentimentos, sensibilidade para entender suas necessidades e autenticidade dos pais cuja liberdade colocaria as fronteiras naturais para a criança.
Miller defende a necessidade de democratizar o acesso ao conhecimiento, a partir de situações que se produzem fora do âmbito psicanalítico - na pluralidade da vida - mas que possam ser compreendidas com profundidade de uma perspectiva psicanalítica.
continua
(*) Miller, Alice. Por tu proprio bien: Raíces de la violencia en la educación del niño. Traducción de Juan del Solar. 4 ed.: Colección Ensayo: marzo de 2009.
Parece que o termo kakfiano representaria um processo através do qual ocorre uma despersonalização ou burocratização do ser nas sociedades totalitárias e as ditas democráticas devido a uma concentração progressiva do poder tendendo a se divinizar. Alguns critérios são necessários para que um fenômeno seja caracterizado como kakfiano:
a) confronto com um poder que tem o caráter de labirinto a perder de vista, uma vez que a instituição em Kafka tem um mecanismo peculiar que obedece as suas próprias leis;
b) no universo kakfiano, o dossiê parece como idéia platônica, ele representa a verdadeira realidade enquanto que a existência física é reflexo projetado;
c) em todo lugar em que ocorre o endeusamento do poder se produz automaticamente o fenômeno pseudo-teológico;
d)no universo kakfiano, o castigo procura a falta.
Se em Crime e Castigo, Raskolnikov não consegue suportar o peso da culpabilidade e consente voluntariamente a punição, no Processo, o agrimensor K. não suporta o absurdo de um castigo sem causa, para encontrar a paz, procura a falta. Neste mundo pseudoteológico, o castigado suplica que o reconheçam culpado.
e)no mundo kakfiano, o cômico não representa complemento para aliviar a tragicidade para torná-lo mais leve ao contrário, o destrói, o engenheiro perde a sua pátria e todo o auditório ri.
Em um ponto do ensaio o autor sinaliza que os mecanismos psicológicos que funcionam no interior dos grandes acontecimentos históricos são os mesmos que regem as stiuações íntimas. A famosa carta que Kafka escreveu e nunca mandou a seu pai demostra, segundo Kundera, de onde ele tirou o seu conhecimento da técnica de culpabilização que se tornou tema de seus romances e alguns do seus contos.
A trama do segredo tanto nas sociedades totalitárias quanto nas relações que se estabelecem entre as crianças e o poder endeusado dos pais não passa desapercebido. Tanto uma quanto a outra tentam abolir a fronteira entre o público e o privado. O poder que se torna mais opaco exige cada vez mais transparência na vida dos seus cidadãos do mesmo modo que uma criança não tem direito ao segredo diante do seu pai e de sua mãe.
O agrimensor K. não quer ser aceito pelos seus pares mas por uma instituição e para alcançar isso, ele deve renunciar a sua solidão. A solidão violada é, segundo Kundera, a obsessão de Kafka. A história de Joseph K. começa pela violação da intimidade, dois desconhecidos vêm prendê-lo na cama.
A partir do exposto pretendemos articular a "técnica de culpabilização" no universo kakfiano com os questionamentos da autora Miller (*) sobre a Pedagogia Blanca para refletir sobre o tema transversal da violação da intimidade.
Miller tem o intuito de sensibilizar o público dos sofrimentos da primeira infância. Na primeira parte do livro dedica-se à descrição da "Pedagogia Negra”, ou seja, dos métodos educativos coercitivos. Na segunda parte descreve a infância de Christiane F., Jurguen Bartsch e Adolf Hitler como paradigmas do "aniquilamento da alma infantil", ainda problematiza, entre outros temas, a "Pedagogia Blanca" e as implicações do "Falso Yo" dos pais no desenvolvimento dos filhos. Neste sentido, a autora faz uma leitura possível do suicídio da poeta Sylvia Plath.
A sua linha de trabalho baseia-se em uma definição da primeira infância distinta do modelo pulsional da psicanálise, aponta a necessidade de estabelecer uma distinção clara entre o sentimento de culpa e o luto.
A sua postura antipedagógica não se dirige contra uma forma particular de educação mas contra a educação como um todo, inclusive a antiautoritária. Enfatiza a importância do ambiente e a determinação do inconsciente das pessoas que cuidam da criança como etiologia de patologias na medida em que exercem uma influência essencial no desenvolvimento da criança.
O ponto que nos interessa é a sua tese antipedagógica, ressalta que muito provavelmente as pessoas que cresceram dentro de um sistema de valores baseados nos dogmas da “Pegagogia Negra”, caso não tenham tido experiências psicanalíticas de nenhum tipo, não verão com bons olhos a sua postura, vista inclusive, segundo ela, com certo desdén uma vez que é tida como uma postura ingênua otimista.
Acredita ser a pedagogia de Rousseau manipuladora no sentido mais profundo do termo. Miller baseia-se no estudo que Ekkehard von Braunmuhl fez do livro Emilio, vejamos um parágrafo que sintetiza bem a idéia do romance : "Seguid el camino opuesto con vuestro educando. Hacedle creer siempre que él es el maestro, pero en realidad sedlo vosotros. No hay sumisión más perfecta que la que conserva las apariencias de liberdad. De este modo se somete incluso la voluntad. Ese pobre niño que nada sabe, nada puede y nada conoce no está totalmente a vuestra merced?" O livro de Rousseau é um ensaio pedagógico sob a forma de romance que pretende fazer da criança um adulto bom.
O fato de considerar a educação perniciosa não quer dizer que a criança deva crescer sem tutela, o que a criança necessitaria para se desenvolver, segundo ela, é respeito, tolerância em relação aos seus sentimentos, sensibilidade para entender suas necessidades e autenticidade dos pais cuja liberdade colocaria as fronteiras naturais para a criança.
Miller defende a necessidade de democratizar o acesso ao conhecimiento, a partir de situações que se produzem fora do âmbito psicanalítico - na pluralidade da vida - mas que possam ser compreendidas com profundidade de uma perspectiva psicanalítica.
continua
(*) Miller, Alice. Por tu proprio bien: Raíces de la violencia en la educación del niño. Traducción de Juan del Solar. 4 ed.: Colección Ensayo: marzo de 2009.
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